Filme “Batalha” mostra polarização política no Brasil, sem cortes

Dirigido por ex-alunos da USP, o curta-metragem recebe menção honrosa em festival europeu

“É uma grande alegria e será uma grande ajuda na trajetória do filme”, afirma Clara Lazarim, ex-aluna do curso de Audiovisual do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e codiretora do curta-metragem Batalha, que acaba de receber menção honrosa no festival Short of The Year – Autumn, promovido pela distribuidora espanhola Promofest. O prêmio dá direito a 50 inscrições do filme em outros festivais internacionais.

Clara Lazarim, Rica Saito, Guilherme César e Caio Castor: premiados internacionalmente pelo curta Batalha – Foto: Battle Press Kit

Batalha aborda a polarização política no Brasil ao registrar uma entrevista que, realizada às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil em 2018, no pátio da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, se transformou numa acalorada discussão. Além de Clara, a produção tem direção de Guilherme César e Rica Saito, também ex-alunos da ECA, e do documentarista Caio Castor. 

Cinquenta anos depois da “Batalha da Maria Antonia” – como ficou conhecido o conflito entre estudantes da USP e do Mackenzie ocorrido em outubro de 1968 na Rua Maria Antonia, no centro de São Paulo, que resultou na morte de um estudante secundarista -, o local foi novamente palco de divergências políticas. Saito conta que ele e a equipe estavam entrevistando apoiadores do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro no campus da Universidade Mackenzie, ainda hoje instalado no mesmo local onde se deu o conflito de 1968, quando uma jornalista, Marília Melhado, indignou-se com os discursos de ódio à esquerda. “Gravamos um depoimento em que ela expressava seu sentimento de confusão e sufoco diante da iminente derrota da esquerda, temendo pelo fim da liberdade de expressão e da democracia. A fala dela foi interrompida bruscamente por apoiadores do Bolsonaro, que perguntaram se ela apoiava corrupção”, explica Saito. Assim, começam o curta e a discussão.

A gravação era parte do processo de pesquisa da produção do longa-metragem Verde e Amarelo, projeto documental sobre a ascensão da extrema direita no Brasil, ainda em desenvolvimento por Castor. Entretanto, aquele flagrante do conflito despertou interesse por sintetizar os atritos da bipolarização política vividos no País. “Assim que gravamos essa cena, ficamos perplexos com o que havíamos testemunhado”, conta Saito. Clara, também montadora do filme, assistiu ao material bruto e apostou que o fragmento já valia um filme. “Eu encontrei esse take no meio do material e chorei toda vez que via até, sei lá, a décima vez, aí consegui me distanciar”, afirma Clara.

 “A coisa esquenta na medida em que mais personagens se destacam da massa para entrar na briga, entre argumentos racionais e puros clichês, revelando toda a raiva e preconceito de uma sociedade dividida. A briga rapidamente evoluiu para um empurra-empurra, quando um ex-diretor da Faculdade de Economia do Mackenzie tentou afirmar sua autoridade questionando Marília. Ambos perdem a razão e a jornalista cai em prantos, sendo consolada por uma das jovens que se coloca em sua defesa”, descreve Saito.

Para Clara, a importância da produção está em documentar as manifestações e os acontecimentos políticos recentes no Brasil, trazendo à tona reflexões e contradições. “Batalha é um excerto desses registros em processo, que em uma só tomada dá vida a uma espécie de metonímia do Brasil em conflito, a câmera catalisa uma aglomeração de brasileiros com posicionamentos políticos diversos e polvorosos”, completa. O curta registra a discussão em plano sequência – ou seja, sem cortes ou intervenções -, durante 15 minutos.

 Clara conta que a postura de não intervenção na cena, de se manter acompanhando o acontecimento em filmagem, é uma prática que aprendeu nos exercícios curriculares durante sua formação na ECA. “A minha experiência como estudante da USP foi extremamente importante. Eu sempre tive muito interesse, mas foi lá que tive de fato acesso às técnicas e métodos documentais”, afirma. Para Saito, além da capacitação das técnicas na área documental, a vivência com alunos de outros cursos permitiu que ele entrasse em contato com discussões e ações políticas que ampliaram seus horizontes. “Isso além de firmar encontros com parceiros de amizade e trabalho que perduram até hoje.” 

O curta-metragem teve passagem por grandes festivais de cinema internacionais, como o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), o Festival de Gotemburgo, na Suécia, o Zagrebdox, na Croácia, a mostra competitiva de curtas do Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e o de Leiden, na Holanda, onde também conquistou uma menção especial.

César afirma que essa repercussão internacional não foi uma surpresa, porque, além da originalidade da linguagem escolhida, a questão temática é forte não apenas no Brasil. “O que o bolsonarismo representa em termos de violência e mobilização nos seus eleitores fervorosos, assim como o que ele está promovendo no Brasil como experiência política dramática, é algo que não diz respeito só ao Brasil. A nossa desgraça, a nossa violência reverbera no mundo”, afirma César. 

Rejeitado pelas curadorias dos festivais É Tudo Verdade e Curta Kinoforum no ano passado, Batalha ainda não tem data de estreia no Brasil. Saito destaca que o cenário de fomento ao cinema nacional independente, com a suspensão do Programa de Apoio à Participação Brasileira em Festivais da Agência Nacional de Cinema (Ancine), é “preocupante”. “Estreamos no fim de 2019 no IDFA sem nenhum patrocínio nem apoio oficial. Conseguimos algumas doações e empréstimos de amigos e fomos os quatro diretores representar nosso filme para um plateia ávida por informações sobre o que se passa no Brasil”, afirma. Ainda sobre a recepção brasileira do curta, Saito desconfia que, para os brasileiros, a produção toca num ponto polêmico, pois retrata um debate acalorado, irracional em determinado momento, entre figuras que defendem lados opostos no campo político.

“Eu fico feliz, como profissional, com essa repercussão de um trabalho em que estou envolvido. Mas confesso que fico triste porque, desde que fizemos o curta, vimos esse clima beligerante, violento, essa experiência política tão terrível se aprofundar no País”, diz César.

O trailer do curta-metragem Batalha, de Clara Lazarim, Guilherme César, Rica Saito e Caio Castor, está disponível neste link.

Por Guilherme Gama, do Jornal da USP

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.